PES (AyA) - Teso ITTAPA

PES (AyA) - Teso ITTAPA
Pesquisas e Experiências Subjetivas Anarkia y Ayahuasca Entre Parênteses - Jogo Teso ITTAPA

103 ex-virgens em Ayahuasca

103 Ex-virgens de Ayahuasca nos PES (AyA)

Como um dos critérios de pesquisa é saber se a pessoa que vai beber ayahuasca nos PES (AyA) já experimentou alguma vez a ayahuasca, tenho perguntado desde o início sobre o critério VIRGINDADE DE AYAHUASCA. Tenho anotado somente as pessoas que bebem comigo pela primeira vez, mas muitos também o fazem pela segunda ou terceira vez. Poucos das 191 pessoas que passaram pelos PES (AyA) são ayahuasqueiros experientes. Assim, meu ambiente de pesquisa se dá mais em como acontecem as reações primeiras em contextos variados.
Me interessa esse limite simbólico da perda da virgindade, em relação a essa bebida SOMAATIVA, pois como expectativa de uma bebida "alucinógena", "sagrada" o_u "mágica", esse transpor o limite da primeira experiência, para alguns, ultrapassa a expectativa em relação ao ato sexual, por exemplo, no que mais a palavra "virgindade" nos remete.
Assim, a principal característica de se perder a virgindade, se dá no conhecer algo, no aspecto prático e vivencial. Na sexualidade a maior parte das pessoas reproduz o que vive no cotidiano, um repetir monótono, após a perda da virgindade há pouco aprendizado ou crescimento da sexualidade, inclusive alguns viverão uma vida sexual inteira com pouca variação e novos conhecimentos. Como normalmente é o homem quem conduz o ato sexual, mulheres com pouca variedade de parceiros normalmente possuem muito mais conhecimento de formas de fazer sexo que um homem com grande variedade de parceiras que repete a cada nova parceira o "seu jeito". Apesar de esse "jeito individual" de cada um possuir variações, também possui uma forma padronizada e repetida, o que acaba gerando essa sensação de segurança, tornando muito diferente o ato sexual para um "virgem" e para um experiente. Um virgem pode até saber racionalmente o que pode e vai acontecer, mas ainda não viveu a experiência realmente. Quem já fez sexo pode estar mais aberto ou mais fechado a novas experiências, mas sabe a sensação da penetração e seus enlaces.
Vou agora comparar um pouco esse ato de adquirir um NOVO conhecimento com o aprendizado da capoeira angola.
Quando se deseja aprender a capoeira, já é pra estar na roda de capoeira, no jogo, canto e toques. Assim, existe a expectativa da primeira vez que se entra na roda, mas isso é minimizado no estilo angola, onde no primeiro dia o novato é convidado a entrar na roda, fazendo o que aprendeu no dia. No estilo contemporâneo, se cria a expectativa dos cordéis a serem conquistados em eventos com batizados. Mas o que marca a vida de um capoeirista é que cada roda em um local diferente, com mestres e pessoas diferentes, é uma NOVA roda. E que cada jogo que é feito com uma pessoa diferente é uma NOVA expectativa, e por mais que os jogadores sejam experientes, surge algo em que compartilham de uma virgindade, no caso, a primeira vez que jogam com aquela pessoa. Assim, na capoeira, é incentivado essa busca pelo novo, essa busca por jogar com pessoas diferentes, pois essas despertarão diferentes respostas em meu jogo e meu corpo.
Após esse navegar pela sexualidade e capoeira, volto ao tema proposto, a virgindade que observei em mais de 100 pessoas ao beberem ayahuasca. E, a partir da minha prática, que foi não só ver mais de 100 pessoas reagirem a ayahuasca em sessões que coordenei, mas acompanhar de dentro da mesma pesquisa algumas recorrências, como quem bebeu comigo pela primeira vez e depois bebeu mais 30 vezes, em 35 sessões que me viu coordenar, seja de pessoas que perderam a virgindade na ayahuasca comigo há 20 meses atrás e na sua segunda participação comigo já tiveram um experenciar de quase 10 vezes em ambientes diversos.
Assim, esse é um momento de refletir sobre o cruzar a fronteira na ayahuasca, no caso marcando o ocorrido com pessoas que vejo fazendo em vários níveis, e mesmo os que já haviam bebido a ayahuasca muitas vezes não tinham a liberdade pessoal e de contexto para melhor saborear seus efeitos. Assim, de certa maneira, todos somos virgens nas sessões dos PES (AyA), seja pela química da bebida na interação com os corpos, seja no contexto do espaço físico gerando expectativas e interações, seja no curso geral da sessão, suas músicas, falas e ocorridos com outros "navegantes", tudo influencia o aqui e agora das sessões e seu fluir.
Mas a ayahuasca se diferencia mais ainda dessas conjecturas teóricas que abordei, os extremos da percepção, seja por último numa visão filosófica de Heráclito, onde sabemos hoje via física quântica que nunca atravessamos duas vezes o mesmo rio, pois o fluir molecular sempre é novo, seja numa visão tradicional em que se vive uma vez, já se conhece as coisas conhecidas, perdendo a novidade. Ou seja, por mais que eu mude, ou as coisas mudem, transformo permanentemente as coisas em iguais (Wilhelm Reich denominou isso de couraça do caráter). Assim, no caso da ayahuasca, o beber SEMPRE é diferente, e por mais normopatas, encouraçados, e rígidos, a ayahuasca ultrapassa essa sensação de "controle" que pode ser sentido em outras situações de quebra da virgindade. Ou seja, na ayahuasca a relação expectativa versus vivência se mostra como um potencializador do VIVER. Não se pode antecipar a vivência, a experiência, a vida sempre se apresenta NOVA, Heraclitamente percebida ou não, a vida sempre é o novo, e sempre no aqui e agora.
Assim, a experiência química transforma nosso olhar e perceber mais apurado a ponto de sentirmos o que a física quântica ainda engatinha em suas percepções e possibilidades, a possibilidade de perceber como, primeiro, a experiência da "borracheira" é sempre única (borracheira é o nome que alguns ayahuasqueiros definem ser "estar sob os efeitos da ayahuasca"). Cada borracheira é a descrição prática e vívida de que sempre tudo MUDA e a mudança é o fluir da vida. Cada experiência aprendida numa borracheira pode não ser nunca mais esquecida, bem como não servir a nada como segurança para uma próxima borracheira e suas sensações. Assim, ao mostrar na prática como tudo é sempre novo, a experiência da virgindade ser superada não acontece no nível da expectativa da próxima vez, pois se sabe que tudo pode ser novo, e o fato de ter se perdido a virgindade não significa absolutamente nada, pois qualquer pessoa está vulnerável a PEIAS (bad's trips), sejam elas físicas ou racionais, se for possível essa separação.
Brincamos no ambiente ayahuasqueiro que SEMPRE é bom beber ayahuasca. Normalmente pela experiência, mas às vezes por parecer que SOBREVIVEMOS a ela. O que alguns chamam de Peias, podem ter uma expressão física imediata como enjoos, vômitos e caganeiras, bem como confusões mentais que podem ser mais internas ou externalisadas, muitas vezes incomodando o social de quem está próximo à experiência. Esse conhecer antecipado para quem vai beber a ayahuasca, somado a sua própria experiência, transforma o ato de beber em quase que um momento de sofrimento, seja pelo gosto da bebida, seja pela antecipação das possíveis peias advindas de sentir o gosto da bebida (ela entrando em meu ser e potencializando o que sou), como situações difíceis de engolir, isso se projeta antecipadamente para o momento de se beber a bebida. Assim, o gosto da ayahuasca se difere para os virgens dos não virgens. A primeira vez o novato experimenta o gosto da bebida ayahuasca, e da segunda vez em diante o gosto passa a ser da experiência ayahuasca - ou seja, a soma do gosto da bebida com o gosto do que ficou em meu ser.
Curioso que a única das 58 sessões que conduzi que denominei de sessão PEIA, foi devido a interação com uma pessoa que no início da sessão disse que era virgem na bebida, e no final comentou que já havia bebido em contexto religioso. E, por outro lado, uma situação que poderia se caracterizar como a mais problemática se mostrou um aprendizado dos efeitos da bebida e sua força, com um rapaz em BH que bebeu mais que o que lhe foi oferecido.
Enfim, houve momentos interessantes, pitorescos e variados, mas vejo como no geral e nos específicos os efeitos são benéficos. Seja em experiências totalmente internas, com pessoas que nem se mexem durante as 4 a 6h de sessão, como a de uma menina que riu e gargalhou por 4 horas, e no final analisou tudo como um grande orgasmo... Seja numa minoria que retorna e participa mais de uma vez nos PES (AyA), seja quem só participa uma vez, procuro estar atento a absorção e efeitos variados da ayahuasca em seus corpos. E, nesse quesito, é de 100% os efeitos produtivos, que vão desde um relaxar profundo muscular durante a sessão, e que em alguns se prolonga ao dia seguinte, passando por efeitos gastro-intestinais de limpeza e bem-estar e por aspectos emocionais mais superficiais, como sensação de bem estar, insights emocionais (tipo rever rancores e mágoas em situações específicas), insights terapêuticos (tomadas de decisões, ora importantes ou ora superficiais).
Mesmo eu, que estou em meu terceiro ano como coordenador de sessão, distribuindo chá para pessoas em geral, sinto que cada vez que faço alguma sessão ela possui alguma característica de novo. E nesse perceber e interagir entre o INTERNO (fluir da minha borracheira) e o EXTERNO (perceber e coordenar o fluir da borracheira da sessão) segue minha proposta de ARRISCAR pelo NOVO, me dispondo a ser um eterno virgem nesse quesito da segurança das sessões, em relação a fixar espaço, ritual, música, etc. Me arrisco a confiar sempre em como poderei responder a cada nova situação, e nisso incentivo a quem bebe ayahuasca comigo a descobrir e perceber para poder vivenciar e aceitar esse comando interno em meio ao caos externo.
Religiosamente chamamos isso de se conectar a Deus, ou deixar Deus vir a superfície, e nesse momento perdemos os medos e vem a entrega. Essa possibilidade numa sessão dos PES (AyA) acontece devido às entregas individuais, que são favorecidas pela sessão como um todo, mas é de cada pessoa a possibilidade de se entregar e gerar essa percepção da LUZ ou do chamado DIVINO. Muitas pessoas podem usar a ayahuasca e obterem resultados muito diferentes na avaliação da experiência, mas dependerá sempre PRIMEIRO da capacidade individual de se soltar e se entregar fisicamente a bebida e seus efeitos. Essa capacidade nem sempre tem a ver com o desejo de entrega, ou capacidade de entrega a outras situações do viver.
Assim, posso comparar o NOVO de cada sessão com o fluir das sessões passadas, que compartilho com as pessoas, e sobre as quais tenho escrito, incentivando também a escrita por outras pessoas. E anuncio também que, a partir de agora, vou atentar mais para essa minoria substanciosa que são os repetentes, pois apesar de eles constituírem pouco mais que 1/5 dos 191 participantes, são eles que geram eu ter distribuído 378 doses nessas 58 sessões (contagem líquida), ou seja, somando os âncoras (participantes que não bebem mas ficam na sessão), cheguei a 409 pessoas nos PES (AyA) (contagem bruta). Assim, essa diferença se deve a essas 44 pessoas que repetem mais 1x (16 pessoas), mais 2x (8 pessoas), mais 3x (8 pessoas), a pessoas que repetem os PES (AyA) de 5x a 35x (12 pessoas).
Por fim, registro que pessoas experientes na ayahuasca possuem uma forte tendência de gostar/preferir manter a forma inicial que aprendeu a beber ayahuasca. Pode ser por rigidez pessoal ou tendência geral a manter ritos, ou couraças, mas levanto esse quesito como ponto observado a ser registrado. Talvez com mais participantes com experiência em outros ritos eu possa enveredar por essa pesquisa, mas começo a perceber em pessoas que repetem a experiência somente nos PES (AyA) a também cristalizar desejos a partir de sessões anteriores, seja na via musical, ou na estrutura da sessão.
De qualquer maneira fica um marco, na segunda sessão alcancei 10 virgens, na sessão 58 alcanço 103 virgens, em que sessão alcançarei os 1000 virgens?

Rui Takeguma, poção da Maromba em 8 de abril de 2010.

site oficial - http://p.e.s.vilabol.uol.com.br
site de relacionamento - www.somaie.ning.com
blog - www.pesayahuasca.blogspot.com

observação pós publicação (28 de abril de 2010)
Acabei publicando este texto primeiro no NING e agora, 20 dias depois, publico neste BLOG.
Resolvi verificar nas estatísticas dos PES (AyA) essa relação entre VIRGENS na Ayahuasca e o "momento bola-da-vez" (deste início do ano, 3 revistas nacionais e semanais publicando matérias de CAPA, pela publicação no Diário Oficial e assassinato do Glauco). E se comprova o EFEITO POSITIVO da divulgação, pois aumentou a curiosidade e mais pessoas estão experimentando por si, a ayahuasca.
Neste ano de 2010, das 45 pessoas NOVAS que cadastrei, 33 eram Virgens (73 %). No ano de 2008, foram 16 virgens dos primeiros 45 (35%) e ano passado, 2009, foram 14 virgens dos primeiros 45 (31%). Vejam que a diferença não é pequena: DOBROU o número de pessoas que nunca haviam bebido a ayahuasca e tiveram comigo sua primeira experiência...
E neste final de Abril, atualizando os dados do texto acima, em 28 meses que distribuo a ayahuasca, distribuí 401 doses, para 198 pessoas (na contagem bruta, 434 participantes, pois houveram 33 âncoras nas 61 sessões).

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